quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

"O negro rejeita a piedade e o filantropismo aviltantes e luta pelo seu direito ao Direito".

Foto divulgação

 
Por: Juliana Lino
 
*****Desde Chica da Silva, a escrava que se tornou senhora, negros vêm sendo motivados a agir e parecer brancos. O Brasil teve até mesmo um processo de branqueamento após a abolição (eugenismo), quando o governo pagou europeus (alemães, italianos, etc) para imigrarem ao Brasil – com o objetivo de clarear os genes e a cultura, assim tornando o país mais “civilizado”.

 
Nos anos 30, essa prática perdeu força, graças a Gilberto Freyre e outros ativistas que defendiam as contribuições dos negros à sociedade. Freyre rompeu com a visão tradicional das relações raciais e propagou a ideia de que no Brasil existia uma democracia racial, ” Todo brasileiro, mesmo o alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não na alma e no corpo, a sombra, ou pelo menos a pinta, do indígena e/ou do negro.” Freyre realmente acreditava que a sociedade brasileira estava mais evoluída do que outras nações ao lidar com questões de raça e ele via nosso país como um paraíso multi cultural.

 
No entanto, a realidade é bem mais complexa e menos romântica. Ainda hoje, as novelas mostram apenas um ou dois personagens negros – raramente protagonistas. Cabelos alisados são os favoritos entre as mulheres, e é aceitável dizer que cabelo enrolado, crespo ou de “preto” é ruim. Mesmo a atriz Zezé Mota, que interpretou Chica da Silva no cinema, e chegou ao estrelado, admite que até muito recentemente, no Brasil, negros eram considerados feios.
 
Eu sei que é difícil aceitar que racismo existe no Brasil, mas não como nos EUA, onde há segregação e animosidade entre as raças.
 
Salvador, a cidade mais negra do Brasil, nunca teve um prefeito negro. Onde estão as super models negras do Brasil nas capas da Vogue? Ou as poderosas blogueiras de moda e beleza, formadoras de opinião, da raça negra?
 
Pode-se alegar que isso ocorre no Brasil devido à desigualdade social, pois negros, em sua maioria, possuem menor poder aquisitivo. A desigualdade na representação dos afro-brasileiros na mídia e na sociedade também contribui para este fato. Ao ir à Cidade de Deus, você irá notar que a pequena minoria de brancos de lá vivem melhor do que a imensa maioria negra. Negros ricos ainda são mal tratados no Brasil, um dos maiorias ativistas brasileiros, Abdias Nascimento, clama que a democracia racial no Brasil é uma grande piada, uma grande mentira.
 
Crescendo no Brasil, eu ouvi piadas de preto, assim como de português ou de loiras e sempre achei graça de todas – nunca me considerei racista. Como poderia? Eu mesma sou mestiça, descendente de portugueses, índios e negros. Mas confesso que minha vida foi mais fácil do que a do meus primos, que são mais mulatos. Por ser branquinha, meus professores na escola pública assumiam que eu era mais bem comportada e mais inteligente e me tratavam melhor. Quando tinha 16 anos e tentei conseguir um emprego na telefônica, eu fui selecionada, enquanto minha prima e melhor amiga, Érica, que tinha curso de computação e datilografia que eu não tinha, ficou para trás. Também sempre ouvia que tinha cabelo “bom”.
 
Mesmo assim, eu morria de vontade de ter os cabelos cacheados da Érica e fazia, sempre que tinha oportunidade, mil trancinhas para que eu pudesse acordar com os cabelos frizados. Cabelo cacheado é bom sim! E é com lágrimas nos olhos que eu escrevo que não é justo que cabelos crespos, cacheados e enrolados sejam vistos como inferiores. É com lágrimas nos olhos que eu relato que fiquei muito ofendida de ver esta blogueira proclamar que tem cabelos lisos, e consequentemente bons. É uma ofensa a mim, a minha família mestiça, as pessoas que amo que são da raça negra e que merecem mais espaço e respeito no Brasil e no mundo.
Quase todo brasileiro é mestiço, quase todos devem ter alguma porcentagem de índios, europeus, asiáticos e negros – geneticamente o Brasil é uma democracia racial, quem sabe um dia essa mistura estará refletida de forma justa em todas as camadas da sociedade?*****

Esse conteúdo é parte do artigo "Controvérsia: “Meu Cabelo é Bom” - de Juliana Lino. Clique no link a seguir para ler o artigo completo.
http://www.produtosdebeleza.com/controversia-meu-cabelo-e-bom.html#ixzz2GCVK4u6Q
1ª Barbie Negra - Criada na década de 80
 
"Cozinhou-se, assim, uma espécie de conserva do problema do negro, sob o pré-julgamento de que ele se organizando quer se separar do branco, quer guerrear o branco, quer criar um preconceito racial inexistente entre nós". Abdias do Nascimento


Clique no link a seguir e leia o interessante texto de Abdias do Nascimento sobre o jornal "Quilombo". http://www1.folha.uol.com.br/livrariadafolha/920231-leia-texto-de-abdias-do-nascimento-sobre-o-jornal-quilombo.shtml

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“Como professor, não me é possível ajudar o educando a superar sua ignorância, se não supero permanentemente a minha”. Paulo Freire